quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Episódios

Episódios Presentes n'Os Lusíadas

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Canto I - Primeira reflexão do poeta

A fragilidade da vida humana

Este bem podia ser o título das duas últimas estrofes do canto I de Os Lusíadas.

A decisão proferida no consílio divino perturbou Baco e tudo fez para que a armada do Gama facassasse nos seus propósitos. Porém Venus, "afeiçoada à gente lusitana", esforça-se por levar avante a deliberação ollímpica.

As considerações de Camões no fim do canto, relativas ao esforço na guerra e o enfrentar dos perigos do mar largo e desconhecido, por parte dos nautas, acentuam a pequenez e fragilidade da vida humana, como se dependesse da divindade, da sorte e, essencialmente, do FADO para vingar.

O confronto com o desconhecido, o esforço e o sonho serão premiados. O eco destes versos finais do canto I pode observar-se na Mensagem: (...)valeu a pena?/tudo vale a pena se alma não é pequena."

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Teste

GRUPO I (100 pontos)

Leia, atentamente, o seguinte excerto de um conto de Mário Dionísio.

A primeira vez que a vira fora de noite, à saída dum baile. Já a conhecia, sim, mas nunca a vira. Tudo era medíocre, como sempre, naquele baile, com as mães e as tias sentadas a toda a volta da sala, na segunda fila de cadeiras, as filhas na primeira, os rapazes às portas, prontos para o assalto mal a orquestra recomeçasse, as mães vigiando, as tias vigiando, avaliando, impedindo ou estimulando os namoros possíveis, os casamentos prováveis. O objectivo dos rapazes não era precisamente o mesmo. Mas tinham de aceitar as regras do jogo se queriam chegar a tempo às peças mais cobiçadas, sobretudo nos tangos, dançados à media luz, quando a sala ficava repleta e toda a vigilância se tornava praticamente inviável.
No meio daquela gente alegremente entregue a esse jogo dissimulado de oferta e de procura, Augusto surpreendera, de súbito, o sorriso de Matilde, como quem estivesse a olhar por um binóculo uma paisagem sem interesse e descobrisse um pormenor inesperado com uma nitidez fascinante. Em volta, tudo continuara desfocado, os lustres, as cadeiras, as pessoas que mal conhecia e que eram a mãe de Matilde, as amigas de Matilde, as mães das amigas de Matilde. Dançaram uma vez quase no fim da noite. E falaram. De quê? Não interessava de quê. Só o tom, a descoberta, o alvoroço interior, interessavam. E desceram a escada juntos, um pouco atrás de Ana Soeiro e das amigas, que nessa altura só estavam realmente
preocupadas com arranjar um táxi. Atrás de Ana Soeiro e das amigas, degrau a degrau, demorando a separação. Atrás de qualquer coisa que nascia.
Era já madrugada. Os candeeiros apagavam-se nesse instante e do cimo dos prédios caíam molemente os primeiros bafos duma claridade ainda baça. As senhoras mandavam parar táxis, despediam-se. E a luz indecisa prendia-se nos cabelos, nos olhos, e no sorriso de Matilde. Tinha um lenço azulado ou esverdeado, transparente, em volta dos cabelos que se despenteavam à aragem da manhã próxima. Viu-a entrar no carro sem lhe dizer mais nada. E guardou para sempre, emoldurados pela janela de vidraça descida, esses cabelos que fugiam do lenço transparente, esses olhos na sombra, esse sorriso.
Mário Dionísio, «O Corte das Raízes», in O Dia Cinzento e Outros Contos,
Lisboa, Publicações Europa-América, 1978
Nota:
Ana Soeiro (l. 16 e 17): mãe de Matilde.

Apresente, de forma estruturada, as suas respostas ao questionário.

1. Indique dois dos motivos que levam o narrador a considerar que tudo naquele baile era «medíocre» (linha 2) e que o baile não passava de um «jogo dissimulado de oferta e de procura» (linha 9).

2. Reconstitua, com base no texto (linhas 9-15), as fases da aproximação entre Augusto e Matilde durante o baile.

3. A expressão «atrás de» surge repetida em três períodos do texto (linhas 16-18). Explicite dois dos valores expressivos produzidos por essa repetição.

4. Analise a relação de sentido que a dupla ocorrência da forma verbal «vira», nas linhas 1 e 2, estabelece com o último parágrafo.

5. Identifique o recurso estilístico e especifique a relação de sentido que a expressão “E uma luz indecisa prendia-se dos cabelos, nos olhos, e no sorriso de Matilde” estabelece entre a situação temporal e o ponto de vista do narrador.

6. Identifica pelo menos duas expressões temporais que ajudem a localizar a acção no tempo e que dêem nota da passagem do tempo.


GRUPO II (28 + 12 pontos

1. A glorificação do herói é um dos temas centrais da épica camoniana. Partindo da sua experiência de leitor de Os Lusíadas, redija um texto, entre 100 e 160 palavras, em que registe as suas impressões de leitura, quem se glorifica e o modo como se é glorificado.

2. Nesta questão, faça corresponder a cada uma das alíneas a coluna A a um elemento da coluna B, de modo a obter afirmações lógicas de acordo com o valor de cada expressão.

A                                                                                                  B

                                                                                          a) O enunciador exprime uma relação de causa

1 - Quando se faz referência a um autor,                                 b) O enunciador recorre à autoridade de ontrém como forma de argumentar
                                                                                                para confirmar a sua tese.
2 - Com o uso conjugado das expressões
      por um lado e mas, por outro lado,                           c) O enunciador explicita ideia de alternativa.

3 - Com o uso da expressão fica claro                              d) O enunciador intruduz um novo tema ou
     e para abreviar                                                                 uma variante do que disse anteriormente

4 - Com o uso da expressão há que tomar em
      conta também,                                                            e) O enunciador explicita uma objecção
       
                                                                                           f) O enunciador prepara-se para concluir


 GRUPO III – Composição  (60 pontos)

Num texto bem estruturado, com o mínimo de duzentas e um máximo de 260 palavras. apresente uma reflexão sobre a exploração do espaço expressa no excerto que se apresenta. Para fundamentar o seu ponto de vista, recorra a pelo menos dois argumentos, ilustrando cada um deles com um exemplo significativo.

Os voos espaciais, os projectos interplanetários - apesar do génio e do heroísmo que exigem - podem encobrir a incapacidade das grandes nações industriais de resolver os problemas humanos de desenvolvimento económico e social, porque grande número de recursos, de virtualidades quase infinitas, são negados e não são repartidos por todos e assim as grandes nações voam para longe da Terra.









domingo, 3 de outubro de 2010

Periodização Literária

A periodização literária oferece-nos a possibilidade de situarmos as obras no tempo. Permite também conhecer as correntes literárias e saber que o Barroco precede o Neoclassicismo; ao Modernismo segue-se o Surrealismo, etc...., ao fim e ao cabo um modo de nos situarmos no tempo.

Ao clicares em cada período remete para um sítio de autores mais representativos da corrente.

Literatura Medieval (Séc. XII a XV)

1º Período: dos Trovadores.2º Período: dos poetas Palacianos e Cronistas

Literatura Clássica (Séc. XVI a XVIII)

1º Período: Renascimento . Humanismo. Classicismo2º Período: Barroco3º Período: Neoclassicismo

Literatura Moderna (Séc. XIX)

1º Período: Romantismo2º Período: Do realismo ao Simbolismo

Literatura Contemporânea (Séc. XX e XXI)

Modernismo Neo-Realismo Surrealismo  Experimentalismo e poesia de 61 Concentrismo Existencialismo Realismo Histórico Séc. XXI

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A Dedicatória - do laudatório à exortação da guerra...!

     A dedicatória não era um elemento estrutural obrigatório do género épico, mas, genialmente, Camões decide dedicar o seu poema ao rei D. Sebastião, a quem louva e exorta pelo que representa para a independência de Portugal e para o aumento do mundo cristão; pela ilustre e cristianíssima ascendência e ainda pelo grandioso Império sempre banhado pelo sol.

     Ao louvor, segue-se o apelo. Referindo-se com modéstia à sua obra, que designa como “um pregão do ninho (...) paterno”, um grito popular, pede ao Rei que a leia. Na breve exposição que faz do assunto d’Os Lusíadas, o poeta evidencia um aspecto particularmente importante, a obra não versará heróis e factos lendários ou fantasiosos, como todas as epopeias anteriores, mas matéria histórica. Documenta-o com a apresentação de uma galeria de heróis nacionais que valoriza pelo confronto com os de outras epopeias.

     Termina o seu discurso incitando o Rei a dar continuidade aos feitos gloriosos dos portugueses, nomeadamente, combatendo os mouros, e renovando o pedido de que leia os seus versos.
     O discurso da Dedicatória organiza-se, pois, segundo esta lógica — louvor, exortação e argumentos que a fundamentem, incitamento/apelo de carácter nacional e, em jeito de conclusão, breve reforço do apelo pessoal.

     Há quem considere que esta parte do poema apresenta uma estrutura própria do género oratório: Um exórdio, que corresponde ao início do discurso (6 a 8); uma exposição ou corpo do discurso (9 a 11); uma confirmação, em que seriam apresentados exemplos e ou argumentos (12 a 14) e um epílogo ou conclusão (15 a 17). Veja-se ainda a utilização da segunda pessoa do plural (“vós”), do modo imperativo (“Ouvi”) e de numerosas apóstrofes (“ó bem nascida segurança” que também poderá ser considerada uma perífrase) e que são características da oratória.

    No exórdio (6), o poeta dirige-se a D. Sebastião declarando-o: o enviado providencial para assegurar a independência de Portugal, continuando a obra da dilatação da fé e do império. Note-se a forma como o vocativo «vós» se desdobra em rasgados elogios: D. Sebastião é-nos apresentado como defensor nato da liberdade da Nação, como o continuador da dilatação da Fé e do Império, como o Rei temido pelo Infiel, como o homem certo no tempo certo, «dado ao mundo por Deus». 

     Na exposição (10, 11), o poeta pede a D. Sebastião que ponha os olhos no poema que desinteressadamente fez e lhe dedica, no qual ele verá os grandes feitos dos portugueses, reais e não fingidos, maiores do que os narrados nas antigas epopeias, de tal forma que o jovem rei se poderia julgar mais feliz como rei de tal gente do que como rei do mundo todo (hipérbole) e mitificação do "peito ilustre lusitano"
     Note-se como o poeta desliga a glória de ser conhecido pela sua obra do «prémio vil», já que o moveu o «amor da pátria».
Veja-se a profusão de sinónimos para falsas proezas: vãs façanhas, fantásticas, fingidas, mentirosas, sonhadas, fabulosas. Tudo isto é suplantado pelas proezas «verdadeiras» dos Portugueses. Uma hipérbole que os últimos dois versos repetem, tendo em conta analogia entre os heróis clássicos e os portugueses.
O vocativo e o modo imperativo são as marcas mais notórias da função apelativa da linguagem: “E vós, ó bem nascida segurança...”, “ó novo temor da maura lança...” “Ouvi…” “Ouvi...”.
Os Lusíadas são fonte de glória não só para os heróis, mas também para o poeta altamente comprometido e implicado. Pode ver-se nos quatro primeiros versos da estrofe 10, em que o poeta afirma que foi levado a escrever o seu poema, não pelo desejo de um prémio vil (material), mas de um prémio alto e quase eterno. Esse prémio é a fama de grande poeta entre os portugueses (ser conhecido por um pregão do ninho meu paterno).

O poeta exalta D. Sebastião como rei-menino destinado pelo Fado, ou pela Providência, a grandes feitos, num império já imenso, mas que ele acrescentaria ainda, dilatando a fé e o império (“para do mundo a Deus dar parte grande”).

      O louvor de D. Sebastião está pois, em ser apresentado como um jovem-rei em que o povo português tudo espera, rei predestinado a retomar a grandeza dos feitos portugueses. A ideia do jovem-rei como salvador da pátria reflecte a crise em que a nação já se encontrava, mas ela estava lá tão arreigada no povo que não desapareceu da sua alma nem com o desaparecimento do rei. Nasce o sebastianismo e é precisamente isso: a imagem de um rei fatalmente destinado a ser salvador de uma nação em crise.
     Observe-se também o super-ego camoniano: sereis grande tanto quanto o meu canto for.

A Invocação

     Invocar significa apelar, pedir, suplicar. Deriva do verbo latino: uoco, uocas, vocare, vocaui, uocatum = chamar  (in+uocare)

     Na Invocação, Camões dirige-se às Tágides, as ninfas do Tejo, (neologismo recente) pedindo-lhes que o ajudem a cantar os feitos dos portugueses de uma forma sublime:

“Dai-me agora um som alto e sublimado,
Um estilo grandíloco e corrente,”

Tratando-se de um pedido, a Invocação assume a forma de discurso persuasivo, onde predomina a função apelativa da linguagem e as marcas características desse tipo de discurso – o vocativo e os verbos no modo imperativo - determinam a estrutura do texto:

E vós, Tágides minhas, (...)
Dai-me (...)
Dai-me (...)
Dai-me (...)


Note-se a estrutura anafórica e a apóstrofe:

Apóstrofe
Anáfora
A apóstrofe consiste na interpelação ou invocação de alguém ou de alguma coisa personificada, por meio de um vocativo.
Repara: para invocar as ninfas, Camões utiliza o vocativo.
O vocativo pode estar presente numa frase quando se pretende chamar ou invocar alguém, utilizando-se para isso um nome ou expressão equivalente. O vocativo na frase é móvel, pois pode surgir no princípio, no meio ou no fim, mas está destacado por vírgulas.
A Anáfora é uma figura de estilo que consiste em repetir a mesma palavra no princípio de várias frases ou versos.
A forma verbal “Dai-me” (modo imperativo) surge repetido três vezes no início do verso: trata-se da figura de estilo anáfora.
     O poeta pede às Tágides o estilo elevado que a epopeia e a grandiosidade do assunto requerem; o " som alto e sublimado ", exigido pelo " novo engenho ardente " que as ninfas colocaram nele. Como poeta experiente que é, sabe que a tarefa a que agora se propôs exige um estilo e uma linguagem de grau superior, por isso estabelece ao longo das duas estâncias um confronto entre a poesia lírica, há muito por ele cultivada, e a poesia épica, a que agora se abalança. É uma espécie de mini tratado da poética:

POESIA LÍRICA
POESIA ÉPICA
verso humilde
agreste avena
frauta ruda 
novo engenho ardente
som alto e sublimado
estilo grandíloco e corrente
fúria grande e sonorosa
tuba canora e belicosa
     Esse confronto serve-lhe para marcar a superioridade relativa da poesia épica sobre a lírica.

A Proposição - ou o (en)canto da celebração

     A Proposição é umas das partes da estrutura interna de Os Lusíadas e apresenta duas partes lógicas.

     Na primeira parte, composta pelas duas primeiras estrofes, o poeta enuncia o propósito da obra. O tom grandioso é dado pelo uso do verbo CANTAR, como se de um aedo grego se tratasse.

     Através do seu canto apresenta a galeria de heróis e os feitos que lhes deram esse estatuto: os barões assinalados, os navegadores que investiram pelos mares desconhecidos, dilataram as fronteiras da pátria até ao oriente, vencendo os obstáculos pela força e coragem maiores do que imaginadas para qualquer mortal: "mais do que prometia a força humana". Também o quadro de reis portugueses que se empenharam na dilatação da Fé e do Império. Ainda todos os outros homens que praticaram feitos dignos de memória (feitos valerosos) e que por isso se "vão da lei da morte libertando", isto é, fogem ao esquecimento, imortalizam-se através do canto.

     Na segunda parte, o poeta contrapõe os heróis da antiguidade, sempre singulares, com o herói da epopeia renascentista, um colectivo, o povo português, sintetizado na expressão feliz "peito ilustre lusitano".

"A mitificação do herói d'Os Lusíadas está patente no confronto com os heróis míticos da antiguidade, ofuscados pela grandeza dos senhores do Mar e da Guerra "a quem Neptuno e Marte obedeceram". (apud, Elisa C. Pinto, Vera Baptista, Paula Fonseca)
     Note-se ainda a presença de um EU profundamente empenhado, voz que cantará, exortará, lamentará..., que se fará ouvir ao longo de todo o poema, principalmente no fim dos cantos.