terça-feira, 30 de novembro de 2010

Processos morfológicos - Formação de palavras

Os processos de criação ou formação de palavras existentes em português são:
afixação (derivação, modificação e flexão);
conversão (derivação regressiva e derivação imprópria);
composição (morfológica, morfossintáctica).

A afixação é o processo em que se associa um afixo a uma forma de base permitindo a formação de uma palavra. A afixação pode ocorrer por derivação ou modificação.

A derivação designa o processo de formação de palavras através de um afixo derivacional (prefixo ou sufixo que determina as propriedades morfossintácticas, como a classe a), o género dos nomes b), o tipo de conjugação dos verbos c), da forma de base em que ocorre):

a) [an]o                             anual
          nome                    adjectivo
b) [ram]o                            ramagem
         nome                    nome feminino
c) [ferv]er                                    fervilhar
radical verbal 2.ª conjugação -  verbo 1.ª conjugação

A derivação pode ser:

derivação por prefixação — consiste na junção de um afixo à esquerda da forma de base (denominado de prefixo), por exemplo:

gordura                   antigordura
            nome             adjectivo

derivação por sufixação — consiste na junção de um afixo à direita da forma de base (sufixo), alterando a suas propriedades morfossintácticas, por exemplo:

[bel]o                          beleza
       adjectivo              nome


derivação parassintética — consiste na junção simultânea de um prefixo e um sufixo a uma forma de base. Na parassíntese não é possível suprimir um dos afixos, por exemplo:

abonecar, amadurecer.... e outros verbos da mesma natureza, apavorar....
*aboneca     amadur                                                                                   pavorar
*bonecar      madur                                                                                      apavor

Estas formas individualizadas não existem

A modificação designa o processo morfológico de alteração/modificação de palavras base que decorre da junção de um afixo modificador a uma forma de base, por sufixação a) ou por prefixação b). Neste caso não se pode falar verdadeiramente de formação de novas classes de palavras:

a) livro                    livrinho
          nome             nome

b) fazer                   refazer
         verbo              verbo

A conversão inclui os processos derivação regressiva e derivação imprópria.

A derivação regressiva consiste no processo de formação de nomes a partir de verbos, em que se retira um segmento à forma de base:

atacar          ataque
     verbo       nome

A derivação imprópria consiste no processo de formação de palavras que não implica qualquer alteração formal, na medida em que apenas se procede à alteração da classe da palavra:

O jantar [nome] estava óptimo.

Vamos jantar [verbo].

A composição designa o processo morfológico de formação de palavras que associa duas ou mais formas de base.

Este processo pode realizar-se através da composição morfológica ou composição morfossintáctica.

A composição morfológica resulta da associação de dois ou mais radicais ligados entre si por meio de uma vogal de ligação, podendo ocorrer um hífen entre os radicais:

organ[i]grama
afro-americano

A composição morfológica pode ser:


composição morfológica de coordenação: ocorre quando os radicais da palavra composta apresentam um estatuto idêntico contribuindo de igual modo para a interpretação semântica da palavra. Os compostos deste tipo são adjectivos, e o contraste de género e flexão de número ocorre no final da palavra

(Ex: socioeconómicosocioeconómicas).


composição morfológica de subordinação: ocorre quando o radical que se apresenta à esquerda modifica semanticamente o da direita, pelo que existe uma forte dependência semântica entre os dois radicais. Alguns destes radicais ligam-se por uma vogal de ligação, i ou o, podendo ocorrer um hífen entre eles

(Ex: fotografia, luso-descendente, ped[agogia] (em pedagogia não é necessária a vogal porque o segundo radical começa por vogal)

A composição morfossintáctica designa o processo que associa duas ou mais palavras. Estes compostos podem ter uma estrutura de:

coordenação: integra palavras com estatuto idêntico, pelo que estas contribuem de igual modo para a interpretação semântica do composto. A coordenação associa particularmente nomes, podendo também incluir alguns adjectivos, conforme:

actor-encenador, surda-muda, e a flexão ocorre nos dois constituintes, conforme surdas-mudas.

subordinação: integra única e exclusivamente nomes. O nome da esquerda é considerado o núcleo, e o da direita, o modificador. A flexão ocorre no primeiro constituinte

 (Ex: bombas-relógio). Nestas estruturas os constituintes não apresentam um estatuto semântico idêntico, e o valor semântico do nome à esquerda é modificado pelo valor semântico do nome da direita:
bomba-relógio

A Flexão

Não é propriamente um processo morfológico de criar palavras.
Aplica-se às palavras variáveis, permitindo especificar as suas propriedades morfossintácticas e morfossemânticas. A flexão pode ser nominal ou verbal.

A flexão nominal aplica-se aos nomes e adjectivos, especificando o número singular ou plural e o género masculino ou feminino. De notar que o contraste de género não é considerado, por alguns gramáticos,  um processo de flexão (Gramática da Língua Portuguesa, Mateus et alii) dado que não é um processo obrigatório (apenas os nomes animados possuem contraste de género) e pode realizar-se através de outros processos de formação de palavras como derivação (cf. embaixador/embaixatriz), composição (cf. crocodilo-fêmea), contraste de género através de diferentes palavras (cf. ovelha/carneiro) ou contraste de género através do índice temático (cf. gato/gata).

A flexão verbal aplica-se aos verbos através da flexão em tempo-modo-aspecto e pessoa-número, ajustando-se à conjunção a que pertence o verbo (1.ª, 2.ª e 3.ª).

Ex:

am- (radical) -a (vogal temática) -v (desinência de tempo, no caso pretérito imperfeito dos verbos da 1ª conjugação)  -amos(desinência pessoa número)

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

A Ilha dos Amores - A Utopia

No canto IX, surge uma controvérsia quanto ao estilo sonhador do texto. Como surge encaixado na épica um texto carregado de lascívia? Os marinheiros valentes que usufruem de um locus amoenus geram a descendência semidivina da caça lusa, no qual uma ninfa profetiza os feitos futuros.
O episódio da Ilha dos Amores ocupa uma quinta parte do poema, entre os cantos IX e X. Encontra-se colocado estruturalmente na convergência de todos os diversos níveis de acção/planos que enformam a obra:

- a viagem dos marinheiros;
- a intriga dos deuses;
- a visão da história passada e futura de Portugal (e do mundo de então);

Todavia, introduz uma particularidade relativamente às epopeias clássicas: nestas o conhecimento advinha da catábase, isto é, da visita guiada ao mundo inferior (os Campos Elíseos, na Eneida de Virgilio e mesmo o inferno dantesco, na Divina Comédia); n’Os Lusíadas o conhecimento procede do alto, anábase, ascensão. Vasco d Gama, depois do envolvimento amoroso com Tétis, esta guia-o. Sobem ao cume de um monte para observar o espectáculo do mundo:

- a concepção da estrutura do mundo (cosmos);
- a interpretação filosófica do significado da acção dos homens no mundo;
- a crítica da situação factual da política do tempo de Camões.

Fácil será fazer uma extrapolação e dizer que a Ilha é a visão paradisíaca que a aventura marítima trouxe a Portugal carregado de viúvas e de órfãos! Ou que ela representa uma utopia de feição idealista: o lugar da recompensa dos homens após o longo sofrimento, privação e risco da demorada viagem. Camões percebe que o país de “apagada e vil tristeza” não recompensará nunca os heróis, por isso cria uma utopia ideal. Lugar e modo de recompensa, de encruzilhada e fusão amorosa: Divino e Humano, Esforço e Sonho, Clássico e Moderno.
Mas convém notar que, com a prática erótica que essa Ilha faculta aos homens e ao Gama, é feito, paralelamente, o discurso da revelação da sabedoria histórica e cosmogónica.

Para além de considerações de carácter esotérico, o que o poema nos dá é de facto a prática e o apogeu do amor puro, o "alto amor" como sendo a chave textual para a abertura do conhecimento.
Tais propostas são manifestamente inovadoras, até "heréticas", relativamente às doutrinas, quer neoplatónicas, quer católicas.

É na Ilha dos Amores que a tensão e a carência cedem lugar ao sentimento de conquista sobre o mar desconhecido. A Insula Divina simboliza porto e prémio aos fatigados navegadores, a glorificação pelos feitos heróicos, o restabelecimento da harmonia.

Na Ilha, desfecho do poema,  dissolve-se toda a mitologia a sua ficção maravilhosa e nasce o maravilhoso do Amor, tipicamente camoniano. Como sublinhou António José Saraiva: "a virilidade da coragem bélica se liga tão intimamente ao temperamento amoroso como ao aristocrático desprezo dos bens monetários."

As belas ninfas andavam nuas pelas florestas, algumas tocavam cítaras, outras flautas...

65
[...]aconselhara a mestra experta:
Que andassem pelos campos espalhadas;
Que, vista dos barões a presa incerta,
Se fizessem primeiro desejadas.
Algumas, que na forma descoberta
Do belo corpo estavam confiadas,
Posta a artificiosa formosura,
Nuas lavar se deixam na água pura.


E a palavra também recria um novo Éden. A luxúria da palavra é levada ao extremo. O recurso à metamorfose contribui para  a "naturalização" e por vezes animalização dos homens. As deusas são cervas, eles galgos. O cromatismo empresta ao poema a sensorialidade e sensualidade máximas. A palavra traduzida em poesia dá sentido ao cosmos e, na expressão feliz do Prof. Eduardo Lourenço, começa a iventar-se esta "maravilhosa imperfeição" - Portugal.

56
Mil árvores estão ao céu subindo,
Com pomos odoríferos e belos;
A laranjeira tem no fruito lindo
A cor que tinha Dafne nos cabelos.
Encosta-se no chão, que está caindo,
A cidreira cos pesos amarelos;
Os fermosos limões ali cheirando,
Estão virgíneas tetas imitando.

Camões, voz profundamente presente e implicada moralmente, aponta bem, a partir da estrofe 89 do canto IX, aqueles que são dignos de usufruirem dos deleites da ilha transitória, chamo-lhe assim porque foi criada para o efeito, aparece e desaparece depois de cumprida a sua função. Por isso aquele é um lugar que todos demandamos, mas que só está ao alcance de alguns.

89
Que as Ninfas do Oceano, tão fermosas,
Tétis e a Ilha angélica pintada,
Outra cousa não é que as deleitosas
Honras que a vida fazem sublimada.
Aquelas preminências gloriosas,
Os triunfos, a fronte coroada
De palma e louro, a glória e maravilha,
Estes são os deleites desta Ilha.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Reflexões do poeta: a lucidez inventada

Plano das reflexões do Poeta:
  • Camões, nas suas reflexões, apresenta-se como guerreiro e poeta, perseguido pela sorte e desprezado pelos seus contemporâneos
  • O Poeta assume papel humanista de intervir de forma pedagógica na vida contemporânea
  • Critica a ignorância e o deprezo pela cultura dos heróis e dos homens de armas (c.V)
  • Denuncia o desprezo pelo bem comum, a ambição desmedida, o poder exercido com tirania, a hipocrisia dos aduladores do Rei, a exploração dos pobres (c.VII)
  • Denuncia o poder corruptor do ouro e o prémio vil (c.VIII)
  • Propõe um modelo humano ideal de"Heróis esclarecidos" que terão ganho direito a serem recebidos na "Ilha de Vénus" (c.IX)
  • O poema evidencia a grandeza do passado de Portugal: "um pequeno povo que cumpriu ao longo da sua História a missão de aumentar a Cristandade, que abriu novos rumos ao conhecimento, que mostrou a capacidade do Homem de concretizar o sonho".
  • Ao cantar os feitos heróicos do passado, Camões quer mostrar aos homens do seu tempo a falta de grandeza do "Portugal presente" e incentivar o Rei a "conduzir os portugueses para um futuro glorioso, para uma nova era de orgulho nacional (c.X)

1º Teste: Proposta de Correcção - Critérios

6
E vós, ó bem nascida segurança
Da Lusitana antiga liberdade,
E não menos certíssima esperança
De aumento da pequena Cristandade;
Vós, ó novo temor da Maura lança,
Maravilha fatal da nossa idade,
Dada ao mundo por Deus, que todo o mande,
Para do mundo a Deus dar parte grande;

7
Vós, tenro e novo ramo florescente
De uma árvore de Cristo mais amada
Que nenhuma nascida no Ocidente,
Cesárea ou Cristianíssima chamada;
(Vede-o no vosso escudo, que presente
Vos amostra a vitória já passada,
Na qual vos deu por armas, e deixou
As que Ele para si na Cruz tomou)

8
Vós, poderoso Rei, cujo alto Império
O Sol, logo em nascendo, vê primeiro;
Vê-o também no meio do Hemisfério,
E quando desce o deixa derradeiro;
Vós, que esperamos jugo e vitupério
Do torpe Ismaelita cavaleiro,
Do Turco oriental, e do Gentio,
Que inda bebe o licor do santo rio;
9
Inclinai por um pouco a majestade,
Que nesse tenro gesto vos contemplo,
Que já se mostra qual na inteira idade,
Quando subindo ireis ao eterno templo;
Os olhos da real benignidade
Ponde no chão: vereis um novo exemplo
De amor dos pátrios feitos valerosos,
Em versos divulgado numerosos.

10
Vereis amor da pátria, não movido
De prémio vil, mas alto e quase eterno:
Que não é prémio vil ser conhecido
Por um pregão do ninho meu paterno.
Ouvi: vereis o nome engrandecido
Daqueles de quem sois senhor superno,
E julgareis qual é mais excelente,
Se ser do mundo Rei, se de tal gente.

11
Ouvi, que não vereis com vãs façanhas,
Fantásticas, fingidas, mentirosas,
Louvar os vossos, como nas estranhas
Musas, de engrandecer-se desejosas:
As verdadeiras vossas são tamanhas,
Que excedem as sonhadas, fabulosas;
Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro,
E Orlando, inda que fora verdadeiro,
        (……………………………………..)
19
Já no largo Oceano navegavam,
As inquietas ondas apartando;
Os ventos brandamente respiravam,
Das naus as velas côncavas inchando;
Da branca escuma os mares se mostravam
Cobertos, onde as proas vão cortando
As marítimas águas consagradas,
Que do gado de Próteo são cortadas

20
Quando os Deuses no Olimpo luminoso,
Onde o governo está da humana gente,
Se ajuntam em concílio glorioso
Sobre as cousas futuras do Oriente.
Pisando o cristalino Céu formoso,
Vêm pela Via Láctea juntamente,
Convocados da parte do Tonante,
Pelo neto gentil do velho Atlante.
                                   (Lusíadas, canto I)

1 – Identifique os excertos acima transcritos e enquadre-os na estrutura interna de Os Lusíadas.
Conteúdo (C)- 8
Forma (F) - 4
Cenário de resposta:
Os excertos acima transcritos pertencem à Dedicatória (estrofes 6-11) e ao Consílio dos Deuses (estrofes 19-20). Este episódio integra-se na Narração, a Dedicatória é uma novidade na epopeia introduzida por Camões.

2 – As três primeiras estrofes assumem claramente um carácter laudatório. Identifique quem louva, quem é louvado e, pelo menos, três motivos dignos de louvor.
C - 10
F - 6
Cenário de resposta:
A Dedicatória é um texto marcadamente elogioso. Esse carácter está bem patente nas estrofes 6 a 8 nas quais Camões louva o jovem rei D. Sebastião por ser de descêndência divina, o garante da da independência nacional, a esperança da manutenção e da ampliação do império e da fé.
3 – A estrofe 9 inicia-se com uma forma verbal. Identifique-a e refira o seu valor expressivo.
C - 8
F - 4
Cenário de resposta:
A forma verbal que inicia a estrrofe 9  a segunda pessoa de modo imperativo - "Inclinai". Neste caso concreto essa forma verbal tem o valor de pedido, isto é, chamar/captar a atenção do rei D. Sebastião para a obra do Poeta e para os exemplos de dedicação à patria dos seus antecessores, bem como de outros heróis que contribuiram exemplarmente para a contrução do Império.
3.1 – Seleccione outras formas verbais que tenham sentido idêntico.

C - 4
"Ponde", "Ouvi" - repetido em várias estrofes

4 – “Quando subindo ireis ao eterno Templo” (est. 9, v. 4), isto é, templo da fama. A fama desempenha um papel fundamental na sublimação do herói. Tendo em conta a leitura das estrofes 9 – 11, identifique as condições necessárias para se alcançar a fama.
C - 12
F - 8
Cenário de resposta:
Esta é uma parte muito polémica da Dedicatória. Camões acentua a sua função na mitificação do herói. O poeta é um agente importante nessa tarefa. É através do seu canto, do seu "pregão", isto é,  da sua obra que os feitos dos heróis perdurarão. Vereis os heróis nos meus versos. Portanto a primeira condição para se alcançar a fama é que haja um poeta que escreva, que os cante. Outra condição, é a prática de feitos em prol da pátria, pelo amor da pátria, que sejam dignos desse canto, sem qualquer contrapartida de "prémio vil", sem recompensa material.

5 – Nas estrofes 19 e 20, o poeta interliga dois planos narrativos. Identifique-os referindo as marcas linguísticas que configuram a simultaneidade.
C - 8
F -  4
Cenário de resposta:
As estrofes 19 e 20 pertencem à narração e nelas interligam-se dois planos narrativos: o Plano da Viagem de Vasco da Gama/Plano fulcral e o Plano Mitológico/Divino. A simultaneidade é conferida pelas conjunções temporais "Já" e "Quando".
6 – Identifique o recurso estilístico presente nos versos 2 e 3 da estrofe 19, referindo o seu valor expressivo.

C - 6
F - 4

Cenário de resposta:

A figura de estilo presente nesses verso é a personificação/animismo. Transferem-se as características humanas - a inquietação e o respirar - para os elementos da natureza: "As inquietas ondas apartando; /Os ventos brandamente respiravam". Essas características indicam vivacidade e calma ao mesmo tempo como se traduzisse a quietude vivida pelos homens que navegavam, em contraste com a azáfama que vai no Olimpo.
7 – Elabore um comentário com o mínimo de 80 e o máximo de 140 palavras, tendo por base a estrofe 11 e o texto que se segue:
Camões não desconhece o conceito aristotélico de verosimilhança, isto é, aquilo que é real, independentemente ter acontecido ou não, mas que é plausível. Com efeito, “os heróis portugueses não só ultrapassam essas criações da fábula, como têm a vantagem da verdade sobre a ficção. O confronto diz respeito aos heróis.”                                                      
  (Maria Vitalina Matos, A Poesia Épica de Camões)

C -18
F - 12

Desenvolver pelo menos 3 a 4 aspectos:

- A ideia de imitação dos clásscos
- A diferenciação dos clássicos/especificidade da epopeia camoniana
- Factos reais dados pela experiência, por oposição aos mitos...
- Ideia de superação dos heróis clássicos

II
1 – Leia atentamente o texto que se segue e responda às questões formuladas.
Hoje, ao criar-se um sítio na internet, estamos a lançar informação para um espaço virtual, para uma terra de ninguém que tem a qualidade única e insubstituível de todos ali podermos poisar os pés. Aqui e acolá levantam-se vozes contra isso, mas actualmente, ninguém ousa discutir as vantagens daquele instrumento de comunicação. Os antagonistas dariam uma pálida imagem da evolução tecnológica.
1.1 – Identifique, pelo menos, dois deícticos pessoais, dois temporais e dois espaciais.

P- 6       Ninguém, todos
1.2 – Considere a forma verbal estamos (linha 1). Identifique as referências deícticas que exprime.

P - 6        Pessoais, temporais e espaciais
1.3 – O pronome relativo substitui nomes ou expressões nominais. Identifique o antecedente de que, linha 2).

P- 6     "terra de ninguém"/"espaço virtual"
1.4 – Considere os adjectivos virtual (linha 1) e pálida (linha 4) e assinale verdadeira (V) ou falsa (F) cada uma das afirmações que se seguem, por exemplo, g) – F.

P - 6
a) ambos têm valor objectivo        b) ambos têm valor restritivo            c) virtual têm valor restritivo
d) ambos têm valor subjectivo     e) pálida tem valor subjectivo           f) têm valor não subjectivo
c) e e) são verdadeiras, as outras falsas
III

Dos temas propostos, escolha apenas um deles para a sua composição. O texto de carácter argumentativo expositivo deverá ter entre 180 e 260 palavras.

A – Tendo em conta a leitura do episódio de Inês de Castro, considere a hipótese de restaurar a pena de morte em Portugal. Apresente, pelo menos, dois argumentos contra ou a favor, recorrendo a exemplos que ajudem a sustentar a sua posição.

B – Como sabemos, a Europa sofre um grande constrangimento em termos de natalidade. Com efeito, os estados têm apostado em medidas sanitárias e outras que desfavorecem a natalidade, como a divulgação das medidas anticoncepcionais. A Europa envelhece a passos largos, colocando em causa a coesão social. Apresente, pelo menos, dois argumentos a favor ou contra, recorrendo a exemplos que reforcem a sua posição.


                                                                       Votos de bom trabalho, Jorge Marrão




quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Comentário

TEXTO 2
"A imitação dos modelos clássicos era a herança que os classicistas dedicavam aos autores gregos e latinos. Mais uma vez é preciso notar que a imitação não consistia em mera cópia: seguindo os modelos e as tradições clássicas — a arte, a eloquência citada por Camões na Proposição de Os Lusíadas — na qual esboça o projecto do seu canto de sublimação do homem — se ajudado pelo engenho e pela arte, o talento próprio. Para o épico, mais do que imitar, era necessário superar."

Comentário

Tópicos que posso desenvolver:
- o classicismo/imitação de epopeias clássicas Ilíada, Odisseia e Eneida
- matéria de epopeia: os feitos dos portugueses
- a tarefa do poeta
- a superação

O texto aponta claramente para aspectos fundamentais da tradição clássica e do contributo dos portugueses para o Renascimento.
Camões, tanto como poeta lírico como épico, conhece bem os domínios da cultura greco-romana, especialmente as obras homéricas a Ilíada e a Odisseia, a Eneida de Vergílio. Do mesmo modo que os seus antecessores, propõe-se cantar feitos. Camões louva os dos portugueses - descobrimentos e guerras - destacando o contributo das viagens para a inovação, o conhecimento do mundo, o encontro de civilizações, entre o Ocidente e Oriente, há muito desejado; mas também as vitórias guerreiras no alargamento da fé cristã. Esta é a matéria da epopeia.
A tarefa do poeta, com talento e inspiração, é, pois, sublimar, cantar por toda a parte os heróis reais que se distinguiram ao serviço da pátria, superando os feitos dos heróis míticos e antigos.

140 palavras

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A DEÍXIS

DEÍXIS: palavra criada a partir do grego ‘deîksis,deíkse,ós’ «citação, demonstração, prova, exposição»

A deixis designa o conjunto de palavras ou expressões (expressões deícticas) que têm como função ‘apontar’ para o contexto situacional. Com efeito, por si só essas palavras, digamos que são vazias. Essas palavras ou expressões, só ao serem utilizadas num discurso concreto, adquirem significado, uma vez que o seu referente depende do contexto. Por outras palavras, a deixis pode ser definida como o conjunto de processos linguísticos que permitem inscrever no enunciado as marcas da sua enunciação, que é única e irrepetível. Assim, assinalam o sujeito que enuncia (locutor), o sujeito a quem se dirige (interlocutor/destinatário), o tempo e o espaço da enunciação.
O sujeito da enunciação/locutor é o ponto central a partir do qual se estabelecem todas as coordenadas do contexto: eu é aquele que diz eu no momento em que fala; tu é a pessoa a quem o eu se dirige; agora é o momento em que o eu fala; aqui é o lugar em que o eu se encontra; isto é um objecto que se encontra perto do eu, os tempos verbais indicam um tempo anterior, simultâneo ou posterior ao momento da enunciação (ex.: escrevi, escrevo, escreverei. Ou "Já no Oceano navegavam ... enquanto os deuses ... "). Com efeito, é o sistema de coordenadas referenciais (EU/TU—AQUI—AGORA) da enunciação que possibilita a atribuição de sentidos referenciais.


“A própria palavra deixis, pelo seu sentido etimológico, está associada ao gesto de “apontar”.

O diálogo que se segue apresenta a negrito os elementos deícticos:

Joana: Eu amanhã encontro-te aqui às 10h.
Pedro: Eu não estou disponível! Pode ser de tarde?

No primeiro enunciado, eu significa Joana, enquanto, no segundo, eu significa Pedro, tal como o pronome pessoal te do primeiro enunciado. Também o deíctico amanhã só pode ser correctamente interpretado com conhecimento do dia em que decorreu este diálogo, uma vez que significa sempre o dia seguinte ao da enunciação. Do mesmo modo, o advérbio aqui apenas pode ser definido conhecendo o local da enunciação. Finalmente, sufixos flexionais de tempo-modo-aspecto e pessoa-número indicam, neste caso, simultaneamente a pessoa e o tempo verbal: o tempo utilizado (presente do indicativo) indica uma acção que decorrerá num futuro próximo ao do presente da enunciação.
Assim, a interpretação deste enunciado requer o conhecimento das coordenadas AGORA-AQUI, caso contrário, a comunicação revela-se ineficaz. O mesmo acontece em relação à coordenada temporal num cartaz em que se omitiu a data a que se refere hoje:

Hoje, greve geral dos ferroviários!

Os deícticos inserem-se em diversas categorias gramaticais, adquirindo sentido pleno apenas no contexto em que se emitem. Assim, pertencem à categoria dos deícticos:
— os pronomes pessoais;
— os pronomes e determinantes possessivos;
— os pronomes e determinantes demonstrativos;
— os artigos;
— os advérbios de lugar e de tempo;
— os tempos verbais;
— alguns vocábulos, como ir / vir (movimento de afastamento / aproximação em relação ao espaço em que se encontra o locutor e interlocutor, respectivamente).

Em função da sua natureza deíctica, é possível apresentar a seguinte classificação:

Deixis pessoal — indica as pessoas do discurso, permitindo seleccionar os participantes na interacção comunicativa. Integram este grupo os pronomes pessoais (ex.: tu, me, nós, etc.), determinantes e pronomes possessivos (ex.: o meu, o vosso, teu, etc.), sufixos flexionais de pessoa-número (ex.: falas, falamos, etc.), bem como vocativos. (Algumas formas verbais não apresentam um sufixo flexional específico de pessoa-número (ex.: falo, disse, fizer, etc.). Nestes casos, o sufixo inclui as informações relativas ao tempo-modo-aspecto e pessoa-número, tratando-se assim de uma amálgama).

Quanto eu disser não ouças,
quanto eu fizer não vejas;
e, se eu estender as mãos,
não me estendas as tuas.

Aceita que eu exista como os sonhos
que ninguém sonha,
as imagens malditas que no espelho
são noite irreflectida

Talvez que então
da pura solidão
eu desça à vida.
(J. Sena, Fidelidade)

Deixis espacial — assinala os elementos espaciais, tendo como ponto de referência o lugar em que decorre a enunciação. Ou seja, evidencia a relação de maior ou menor proximidade relativamente ao lugar ocupado pelo locutor. Cumprem esta função os advérbios ou locuções adverbiais de lugar (ex.: aqui, cá, além, acolá, aqui perto, lá de cima, etc.), os determinantes e pronomes demonstrativos (ex.: este, essa, aquilo, o outra, a mesma, etc.), bem como alguns verbos que indicam movimento (ex.: ir, partir; chegar; aproximar-se; afastar-se, entrar, sair, subir, descer, etc.).
Vamos até ali... — convidou, implorativo, o Leonel, perdido pela namorada.
Ali, aonde? — perguntou ela, sem forças para resistir.
Ali adiante...
(M. Torga, Novos Contos da Montanha)

Deixis temporal — localiza, no tempo, factos, tomando como ponto de referência o “agora” da enunciação. Desempenham esta função os advérbios, locuções adverbiais ou expressões de tempo (ex.: amanhã, ontem, na semana passada, no dia seguinte, etc.) e sufixos flexionais de tempo-modo-aspecto (ex.: falarei; faláveis, etc.).

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã
a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
(…)
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático

Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã
(Á. Campos, Poesias)

Deixis social — ligada às formas de tratamento, assinala a relação hierárquica existente entre os participantes da interacção discursiva e os papéis por eles assumidos. Servem de suporte a esta função os elementos linguísticos pertencentes às chamadas formas de tratamento (ex.: o senhor, vossa excelência, senhor director, etc.).
Eu quero prevenir já o senhor doutor de que em minha casa um banho é um banho, quero dizer, é para uma pessoa se lavar. (V. Ferreira, Aparição)

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Questões

TEXTO 1
28
"Deu sinal a trombeta Castelhana,
Horrendo, fero, ingente e temeroso;
Ouviu-o o monte Artabro, e Guadiana
Atrás tornou as ondas de medroso;
Ouviu-o o Douro e a terra Transtagana;
Correu ao mar o Tejo duvidoso;
E as mães, que o som terríbil escutaram,
Aos peitos os filhinhos apertaram.
29
Quantos rostos ali se vêem sem cor,
Que ao coração acode o sangue amigo!
Que, nos perigos grandes, o temor
É maior muitas vezes que o perigo;
E se o não é, parece-o; que o furor
De ofender ou vencer o duro amigo
Faz não sentir que é perda grande e rara,
Dos membros corporais, da vida cara.
30
"Começa-se a travar a incerta guerra;
De ambas partes se move a primeira ala;
Uns leva a defensão da própria terra,
Outros as esperanças de ganhá-la;
Logo o grande Pereira, em quem se encerra
Todo o valor, primeiro se assinala:
Derriba, e encontra, e a terra enfim semeia
Dos que a tanto desejam, sendo alheia.
31
Já pelo espesso ar os estridentes
Farpões, setas e vários tiros voam;
Debaixo dos pés duros dos ardentes
Cavalos treme a terra, os vales soam;
Espedaçam-se as lanças; e as frequentes
Quedas coas duras armas, tudo atroam;
Recrescem os amigos sobre a pouca
Gente do fero Nuno, que os apouca.
32
Eis ali seus irmãos contra ele vão,
(Caso feio e cruel!) mas não se espanta,
Que menos é querer matar o irmão,
Quem contra o Rei e a Pátria se alevanta:
Destes arrenegados muitos são
No primeiro esquadrão, que se adianta
Contra irmãos e parentes (caso estranho!)
Quais nas guerras civis de Júlio e Magno.
.
1. O «som terríbil» (est. 28, v. 7) teve repercussões que não podemos deixar de classificar como verdadeiramente invulgares.
1.1. Pela distância a que foi ouvido. Identifique-o.
1.2. Pelos efeitos que causou na natureza. Refira-os.
1.3. Pelos efeitos que causou nas pessoas, participantes ou não da batalha. Aponte-os.
1.4. Com que intenção se recorre, neste contexto, às personificações e hipérboles?
.
2. Atente na estrofe 30.
2.1.Neste episódio os motivos que desencadearam a batalha estão sintetizados em dois versos (est. 30)
2.1.1. Refira-os e interprete-os.
.
2.2. Atente nos dois últimos versos da estrofe 30.
2.2.1. Identifique o recurso estilístico utilizado, indicando o seu valor expressivo.
.
2.3. Qual a importância da expressão “sendo alheia”, na estância 30?

3. Os estados de alma antes de uma guerra são descritos de forma sublime na estância 29.
3.1. Que sentimentos são atribuídos aos combatentes e que faz não temer a sua própria vida?


4. Na estância 31, surge um momento descritivo.
4.1. Mostre, através de um levantamento de palavras ou expressões, que as sensações auditivas estiveram em destaque na batalha.
4.2. Identifique, agora, exemplificando, o recurso expressivo mais utilizado para transmitir essas sensações.
4.3. Retire da estrofe um eufemismo utilizado para narrar a morte dos inimigos.

5. Atente na estância 32
5.1. Explique o sentido dos seguintes versos, tendo em conta o contexto em que aparecem: “Que menos é querer matar o irmão, / Quem contra o rei e a pátria se alevanta."
5.2. Identifique o motivo por que surgem expressões entre parênteses nesta estrofe.
5.3. Identifique o recurso estilístico presente no último verso desta estância.
6 - Identifique o episódio a que pertence o excerto, classifique-o e integre-o na estrutura da obra.

II - Questão comentário

Faça um comentário à citação (texto 2) que se segue, elaborando um texto que tenha entre 80 e 140 palavras:

TEXTO 2
"A imitação dos modelos clássicos era a herança que os classicistas dedicavam aos autores gregos e latinos. Mais uma vez é preciso notar que a imitação não consistia em mera cópia: seguindo os modelos e as tradições clássicas — a arte, a eloquência citada por Camões na Proposição de Os Lusíadas — na qual esboça o projecto do seu canto de sublimação do homem — se ajudado pelo engenho e pela arte, o talento próprio. Para o épico, mais do que imitar, era necessário superar."

Comentário
 
Tópicos que posso desenvolver:
 
- o classicismo/imitação de epopeias clássicas Ilíada, Odesseia e Eneida
- matéria de epopeia: os feitos dos portugueses
- a tarefa do poeta
- a superação
 
O texto aponta claramente para aspectos fundamentais da tradição clássica e do contributo dos portugueses para o Renascimento.
Camões, tanto como poeta lírico como épico, conhece bem os domínios da cultura greco-romana, especialmente as obras homéricas a Ilíada e a Odisseia, a Eneida de Vergílio. Do mesmo modo que os seus antecessores, propõe-se cantar feitos. Camões louva os dos portugueses - descobrimentos e guerras - destacando o contributo das viagens na inovação e no conhecimento do mundo, e o encontro de civilizações, entre o Ocidente e Oriente, há muito desejado; mas também as vitórias guerreiras no alargamento da fé cristã. Esta é a matéria da epopeia.
A tarefa do poeta, com talento e inspiração, é, pois, sublimar, cantar por toda a parte os heróis reais que se distinguiram ao serviço da pátria, superando os feitos dos heróis míticos e antigos.
 
140 palavras